Sônia Maria da Silva Azevedo

Quando o verão fecha a porta

Duas importantes constatações, quando passo a me dar conta, que o verão vai fechar a porta: o meu “ainda”, não aprendi dizer adeus e a lembrança do ditado árabe que diz: “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.
Isso porque, antigamente, as tamareiras levavam de 80 a 100 anos, para produzir os primeiros frutos. Atualmente com as técnicas de produção modernas, este tempo é bastante reduzido, porém o ditado é antigo e sábio. Conta-se que, certa vez, um senhor de idade avançada plantava tâmaras no deserto quando um jovem o abordou perguntando:

– Mas porquê o senhor perde tempo plantando o que não vai colher?

O senhor virou a cabeça e calmamente respondeu:

– Se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras, ou seja, não importa se você vai colher, o que importa é o que você vai deixar…

Despedida de veraneio em família e entre amigos, não é só fechar mala, é fechar um tempo inteiro que parecia eterno. Talvez justo aí esteja o porquê de eu ainda não ter aprendido a dizer adeus, visto que os verões, quero crer, passam, ainda que não se percam; o café demorado, o almoço ao agrado de todos, precisando variar o cardápio, as toalhas molhadas deixadas num canto, os tantos castelinhos construídos na areia, o milho docinho saboreado entre o vai e vem das ondas, os pastéis fritinhos na hora, os bolinhos de batata, os nhoques, a pipa no ar, o mergulho com a bisa, o colo disponível, o bate papo nas rodas com tantas pessoas afeiçoadas…

Nessas horas confirma-se a prática do velho que plantou tâmaras no deserto, levando-me a pensar que o veraneio seja isto: plantar em solo de amorosidade, ainda que sabido que não colheremos tudo, as mesmas risadas, as conchinhas colhidas que não voltarão iguais. A amarelinha riscada na areia – essa é a primeira a perder a forma, porque a maré leva rapidinho, conquanto, educada e parceira das brincadeiras, montará a areia para novos traçados.

Assim plantamos memórias, plantamos pertencimento, plantamos histórias à semelhança daquelas contadas pelos nossos pais e avós, indo acomodando a saudade que se apresenta no caminho de volta, no aceno, no beijo, no abraço, e assim rogar ao Pai do Céu, enquanto as tâmaras amadurecem.

Cacazinha, amada da Sossô, estuda bastante!

Antonellinha sapeca, constrói teus queridos amiguinhos na Escolinha…

Tutu, gurizinho prá lá de encantador, continua com tuas peraltices.

Anjinha Vivi, que cresças em estatura, sabedoria e graça de Deus, para tua caminhada repleta de bênçãos!!!

O Léo, a Lelê, o Pedro e a Nitinha? Já sabem onde plantei as sementes de tâmaras.

Querida família e amigos:
Até breve!
Se cuidem!

“Se não é tempo de ficar, bem pode ser tempo de guardar”. Se não é tempo de ficar, é tempo de confiar que o que foi plantado florescerá em outros risos, em outros encontros, em outros verões, em outras lambidas de picolé de amora, experiências que se guardam no bolso do avental da alma.
Almejaria conquistar estes coraçõezinhos, a ponto de pretender deles ouvir:

– Ela plantou tâmaras!

“Se não é tempo de colher, bem pode ser tempo de semear.”

Botão Voltar ao topo
error: Cópia não permitida