Sônia Maria da Silva Azevedo

Mesmo que o barqueiro saiba remar

Pois nem bem o outono chegou e, devagarinho, muito lentamente mesmo, uma folha ao vento, adentra pela fresta aberta da minha janela.

Ao segurá-la, percebi que não se tratava de uma folhinha de árvore, e sim de um pedacinho de papel, certamente escapado por outra fresta, de algum outro lugar, com a palavra “vira” escrita.
E o curioso; nada mais continha naquele minúsculo espaço.

Impossível deduzir, que seria uma mensagem tão preciosa quanto as garrafas encontradas em alto mar, por marujos experientes, piratas a procura de aventuras, ou ainda por pescadores e banhistas à beira de uma praia.

E o fascinante aconteceu: minha mente começa a passear num deleite sem igual, sobre tão significativa palavra; “virar o quê”? “Para onde virar”? “Por quê virar”?

Em se tratando de uma “polissemia”, a indagação se prolongava; “de certo é para virar a esquina”. “Seria”? “Dobrar à direita provavelmente”, “ou seria para virar a página”, que não necessariamente é para dobrar, pois estragaria a folha do livro?

“Ou para lembrar-me, quem sabe, que a minha idade virou dois séculos, com mudanças incríveis!”
Quem sabe?

E, aqui, exige-se uma pausa profunda, gigante, não nostálgica, mas repleta de apreço.
Quanto deslumbramento!

Quanta metamorfose, também do corpo sim, que o espelho não perdoa, mas as mudanças do olhar, da escuta, do sentir.

Virou, dobrou, o valor do silêncio, das noites viradas, por todas que viraram lembranças.
A percepção se torna cada vez mais clara, incrivelmente mais nítida, quanto à virada dos costumes, das tecnologias, das linguagens…

Passa-se, então, a fundamentar uma realidade que não é só minha: é de vida, é de mundo, é do estar presente, reforçado com o desejo de querer “estar” permanentemente, até a última virada.

São as dores que viram aprendizados, as lágrimas que viram reminiscências, as alegrias em preces “de eu quero mais”, porque a vida generosa e sábia não apenas passa, ela vira…

Vira até estrelinha no céu.

“A vida, portanto, não é para ser saboreada com garfo e faca, e sim, para que nela nos lambuzemos”.

Ainda que a virada seja inexoravelmente independente da nossa vontade, lembremo-nos da cantiga de roda infantil: quando a canoa vira, mesmo que o barqueiro saiba remar, ela precisa ser desvirada, nivela-se a âncora, refaz-se a direção da bússola, olhar fixo no horizonte, em busca do “terra à vista”!

Botão Voltar ao topo
error: Cópia não permitida