Blog do Nery

O Risco que não sai do papel

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A travessia entre Rio Grande e São José do Norte acaba de ganhar um novo e amargo capítulo, mas desta vez o enredo não pertence à engenharia, e sim ao realismo fantástico da burocracia brasileira. O que o cidadão comum talvez ainda não tenha processado, em meio ao emaranhado de siglas e editais, é a escala do vexame institucional que se desenrola sobre as águas do canal. Não estamos falando de um pilar que cedeu ou de um orçamento que estourou no meio do canteiro de obras; estamos falando, espantosamente, de um simples risco no papel que não consegue sequer ser desenhado.

A suspensão do contrato com a empresa vencedora da licitação ocorreu na etapa mais embrionária possível: a elaboração do projeto técnico e do laudo de viabilidade. A missão era, em essência, colocar um traçado em uma folha, realizar cálculos matemáticos e atestar se a construção é fisicamente possível. Pois bem, descobriu-se que a empresa escolhida não possuía sequer a saúde jurídica necessária para segurar um lápis em nome do Estado. Com restrições fiscais e impedida por lei de prestar serviços ao setor público, a vencedora do certame revelou-se um fantasma administrativo antes mesmo de entregar o primeiro esboço.

A ironia é ácida e o diagnóstico, preocupante. É de se questionar o rigor da triagem e a eficácia dos filtros públicos quando uma instituição com tal currículo de impedimentos consegue sagrar-se campeã de uma licitação para a obra mais estratégica da região Sul. Se não há competência administrativa para selecionar uma empresa idônea que entregue apenas um estudo preliminar, o que se dirá do dia em que a complexidade do concreto e do aço exigir a gestão de bilhões de reais e milhares de operários? Se o filtro falhou no “traço”, quem poderá garantir a segurança da viga?

Este episódio joga uma sombra de desconfiança sobre todo o cronograma futuro, transformando a esperança da ponte em uma comédia de erros. Enquanto o projeto volta para a gaveta por falta de ficha limpa de quem deveria projetá-lo, a população de São José do Norte e Rio Grande continua refém das balsas e do vento. O que fica, por ora, é a imagem de uma gestão que tropeça na própria burocracia, provando que o maior abismo entre as duas cidades não é o canal de navegação, mas a incapacidade de formalizar um contrato que sobreviva a uma simples consulta de documentos.

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