Blog do Nery

Alguns metros acima

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A cidade mais antiga do Estado conhece bem o vento minuano e suas ironias. Sabe que discurso é como bandeira em mastro alto: depende da direção do vento para parecer firme. Nos últimos meses, falou-se muito em inclusão, representatividade, conselhos populares, orçamento participativo, escuta ativa, voz das periferias, protagonismo das comunidades tradicionais. Um léxico inteiro de esperança. A semântica inteira de ideias.

Então veio o Carnaval.

Na passarela, o povo — esse substantivo coletivo que soa bonito nas campanhas — desfilava em cores, suor e alegria. A bateria marcava o compasso de quem pega ônibus cedo, enfrenta fila no posto, conta moedas no fim do mês e ainda assim encontra tempo para bordar fantasia, ensaiar passo, ensinar o filho a sambar e preservar a cultura. O povo estava ali, como sempre esteve o ano inteiro: no chão.

Alguns metros acima, nos camarotes, estavam os representantes do empoderamento. De lá, a vista é privilegiada. Não há empurra-empurra, nem calor demais, nem sapato sujo de lama com confete molhado. A multidão vira paisagem. O grito vira ruído distante. O corpo coletivo se transforma em espetáculo.

É curioso como a política aprende rápido a falar a língua da inclusão, mas demora a descer a escada e pisar no chão enlameado.

O camarote não é crime; é símbolo. E símbolos, para os ricos e poderosos, importam. Quando se clama por igualdade e se escolhe a altura como lugar de observação, constrói-se uma metáfora involuntária: o povo é plateia de si mesmo, enquanto o poder assiste de cima, protegido por credencial, pulseira colorida e aplausos de mãos suadas e calejadas.

Talvez alguém diga que é questão de segurança. Outro, que é protocolo. Haverá quem alegue agenda cheia, compromissos institucionais, necessidade de articulação e juntos no camarote se aproveita o tempo. Tudo plausível. Mas a política não vive apenas de plausibilidades; vive de gestos.

E o gesto de estar no meio — suar junto, apertar mãos sem pressa, ouvir reclamação entre um samba e outro — comunica mais do que qualquer plano de governo com capa bonita olhando o povo de cima.

A distância entre o chão da avenida e o camarote não chega a três metros. Mas, às vezes, é maior que a distância entre discurso e prática.

Em Rio Grande, aqui neste fim de mundo, onde o orgulho de participação carnavalesca costuma ser exaltado, a imagem do poder alguns degraus acima, pode parecer pequena.

Contudo, se não houvesse distância entre um tapinha nas costas, um aperto de mãos, um abraço afável, aí a coisa seria mais papo reto que conversa fiada.

O povo não precisa ser olhado de cima; precisa olhos nos olhos. Não quer ser cenário; quer ser quem caminha junto. Não deseja ser tema de campanha; quer ser parte da decisão. Não quer ser adjetivo, quer ser sujeito de toda a construção do período.

Porque povo é povo — no asfalto quente, na arquibancada improvisada, na esquina iluminada. Não interessa o tipo de iluminação. E poder, quando se coloca alguns metros acima, com iluminação especial, corre o risco de esquecer que a escada está nas mãos do povo.

Dito isso, ressalto que a verdadeira representatividade não se mede pela altura do camarote, mas pela disposição de misturar o próprio sapato ao piso sujo da avenida.

E talvez o empoderamento comece justamente ali: no momento em que, o sujeito eleito decide construir o discurso com o verbo do povo e o adjetivo da constituição, não do abandono.

A vista privilegiada é um sinal que algo está errado neste Estado Democrático de Direito.

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