Blog do Nery

A mentira dos políticos sobre o pedágio

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Durante anos, quem percorreu a estrada entre Rio Grande e Pelotas acostumou-se a um pequeno ritual de passagem, as cabines da praça de pedágio. Ao longe, ao avistá-las, o motorista diminuía a velocidade, procurava algumas moedas, notas de papel no porta-luvas ou estendia a mão com o cartão pela janela. Havia uma cancela, um recibo e um gesto automático do atendente.

Agora, aquela paisagem mudou, mas não se iluda, a liberdade de ir e vir está com os dias contados.
O encerramento do contrato da praça de pedágio, embora tenha sido anunciado com o entusiasmo das velhas promessas políticas — aquelas que falam em aliviar o bolso do cidadão ou devolver a estrada ao povo — não se trata de verdade. Aliás verdade na política nunca existiu. E é exatamente disso que este texto trata.

A verdade é mais silenciosa e mais tecnológica: o modelo das cabines tornou-se obsoleto.
O pedágio não desaparece. Apenas se transforma.

Em lugar das filas de carros e das cancelas que se levantavam lentamente, surge o sistema chamado Free Flow. Nele, o motorista passa pela antiga praça sem parar.

Câmeras registram a placa do veículo, sensores identificam o tipo de automóvel e o sistema envia a cobrança automaticamente para um aplicativo ou conta cadastrada. Não há atendente, não há moedas, não há conversa rápida pela janela do carro.

A estrada continua a mesma. O controle, porém, tornou-se invisível, no entanto, eficiente e eficaz.
Se antes o pedágio era um ponto físico de arrecadação — concreto, visível, quase ritualístico — agora ele se dissolve em uma rede de sensores e bancos de dados.

A cancela desaparece, mas o registro permanece. O carro passa livremente, mas deixa atrás de si uma trilha digital precisa: horário, velocidade, categoria do veículo, trajeto.

E se o pagamento não ocorrer?

Então entram em cena as multas, muitas vezes mais altas que o próprio desespero da dívida. E, naturalmente, os radares continuam atentos ao excesso de velocidade. O fluxo se torna livre para o veículo, mas cada movimento é observado com maior precisão.

Não se trata, portanto, de um gesto de generosidade administrativa. Trata-se de eficiência arrecadatória.
A antiga praça de pedágio tinha algo de quase teatral. O motorista era obrigado a parar, a reconhecer aquele instante de cobrança, a participar conscientemente do processo. Agora o pagamento se torna quase abstrato. A cobrança acontece depois, silenciosamente, dentro de um aplicativo ou na fatura de algum serviço digital.

Assim, quando as cabines da estrada entre Rio Grande e Pelotas finalmente desapareceu e o vento soprou mais livre dos banhados, muitos motoristas talvez sentiram que ganharam alguns minutos de viagem.

Verdade! Não haverá mais filas em feriados, nem a busca apressada por moedas ou notas velhas esquecidas no console do carro. Como também não haverá emprego de homens e mulheres que, durante anos, fizeram parte daquele pequeno ritual cotidiano — levantando cancelas, entregando recibos, desejando boa viagem aos motoristas.

E assim a modernidade segue seu curso habitual: promete velocidade, eficiência e tecnologia. E entrega tudo isso. Em contrapartida cobra o preço silencioso da substituição do homem pela máquina.
A estrada ficará livre, mas não de cobrança!

É! A cancela que desapareceu não era apenas de metal. Era também um pequeno ponto de encontro entre tecnologia, trabalho humano e viagem — um daqueles detalhes do cotidiano. O nosso erro é acreditar em políticos!

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