Encontros orientam terreiros sobre acesso à Política Nacional Cultura Viva
Em dois momentos foi esclarecido como identificar locais, grupos ou coletivos que desenvolvem atividades e podem ser pontos de cultura, conforme a política nacional
Lideranças religiosas ligadas a terreiros de matriz africana do Município de Rio Grande participaram, na sexta-feira, 10 de março, e no sábado, de dois encontros na Prefeitura Municipal com a presença de Mãe Carmen de Oxalá, líder religiosa e diretora espiritual da Associação Beneficente Cultural Africana Templo de Yemanjá (Assobecaty), de Guaíba. Um dos objetivos foi orientar as comunidades locais sobre o acesso a políticas públicas, especialmente a Política Nacional Cultura Viva, do Ministério da Cultura.
Foram duas rodadas de conversa coordenadas por Chendler Siqueira, titular da Coordenadoria Municipal de Políticas de Inclusão Racial. Nos dois momentos, ainda foi esclarecido como identificar certos locais ou grupos e coletivos que desenvolvem atividades como pontos ou pontões de cultura, conforme o regramento estabelecido na política nacional.
Na sexta o encontro reuniu religiosos de casas de matriz africana de linha contínua — aquelas que permanecem em funcionamento por mais de uma geração, preservando práticas, saberes e tradições transmitidos entre familiares e membros da comunidade. A atividade contou com a participação da antropóloga Maria Helena Santana, do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul, da Secretaria de Estado da Cultura.
Mãe Carmen apresentou a experiência da Assobecaty, o primeiro pontão de cultura do Rio Grande do Sul. “Também temos o pontão Pequena África, projeto de resgate, reconhecimento e valorização das casas de linha contínua”, explicou. O trabalho da associação busca identificar, valorizar e fortalecer casas tradicionais, reconhecendo o papel cultural e histórico que desempenham nas comunidades. Conforme Mãe Carmen, além do aspecto religioso, esses espaços preservam conhecimentos, práticas culturais e memórias coletivas que fazem parte da história das populações afro-brasileiras.
A proposta abordada pela religiosa inclui a realização de um processo de mapeamento dessas casas e o acompanhamento por acadêmicos que irão colaborar na construção de registros históricos e culturais. Esse material poderá contribuir para que os espaços sejam reconhecidos como pontos de memória ou pontos de cultura dentro das políticas públicas culturais. A dirigente ainda destacou a importância simbólica de Rio Grande nesse processo de valorização da ancestralidade afro-brasileira, lembrando o papel o Município como porta de entrada de populações africanas no Estado.
Reconhecendo o ponto de cultura
- No sábado, a atividade teve caráter formativo e foi aberta a todos os terreiros de Rio Grande. A roda de conversa abordou a Política Nacional Cultura Viva e apresentou orientações sobre como as comunidades podem buscar o reconhecimento como ponto ou pontão de cultura junto ao Ministério da Cultura.
- De acordo com Chendler Siqueira, o objetivo foi explicar critérios e caminhos para que terreiros possam acessar editais e programas culturais nas esferas federal, estadual e municipal. E ressaltou que os terreiros já desempenham papel cultural e de preservação da memória, ao salvaguardar saberes ancestrais e promover atividades comunitárias.
Filhos de Aruanda
Durante o encontro de sábado, houve a participação do fundador e presidente do Instituto Cultural Filhos de Aruanda, Cristiano Ávila Costa. A instituição, localizada na Rua Almirante Barroso, no Centro do Rio Grande, é reconhecida como ponto de cultura nacional desde 2016 e também possui reconhecimento nas esferas estadual e municipal.
O instituto é considerado referência no Município e no Estado na área da cultura comunitária. Atualmente, atende cerca de 200 alunos e oferece atividades gratuitas para crianças e jovens, como capoeira, dança, teatro, reforço escolar, jiu-jitsu, clube de cinema e biblioteca comunitária. Além das atividades culturais, o espaço também desenvolve ações de convivência e apoio comunitário, funcionando de segunda a sábado e oferecendo refeições e materiais para os participantes.
Cristiano Costa diz que a experiência do instituto demonstra que os terreiros e organizações comunitárias podem atuar como importantes centros de produção cultural e de fortalecimento social nos territórios. A partir dessa compreensão, muitas dessas instituições passam a buscar o reconhecimento formal como pontos de cultura, ampliando as possibilidades de acesso a políticas públicas e a editais de fomento cultural.
- Ele também elucidou a importância da formação e da troca de experiências entre as instituições culturais para fortalecer a rede de pontos de cultura no Município.
- Rio Grande conta, hoje, com 12 iniciativas reconhecidas ou em processo de reconhecimento dentro dessa política.



