
Há quem nasce olhando para o mar, há quem desfrute da geografia sulista, há quem acorda cedo para nadar nestas águas geladas do Atlântico, como eu!
Há, por aqui, neste quase fim de mundo, um místico ar de felicidade. Isso é típico em regiões que ladeiam os oceanos… Em geral são lugares festivos, ambientes que proporcionam a pesca para a alimentação, como também atraem amantes da vida marinha, dos esportes náuticos e aqui atrai também cientistas, pesquisadores da maior universidade voltada ao ecossistema marinho local, a Universidade Federal do Rio Grande.
Rio Grande é assim: acostumada ao vento sul que corta o rosto, ao frio que não pede licença e à resistência silenciosa de quem aprende cedo a enfrentar as intempéries. Talvez por isso não seja tão estranho que, de uma cidade onde o inverno vem do oceano, surja uma atleta olímpica do gelo.
Nicole Silveira carrega Rio Grande para as pistas congeladas do mundo. Não no peito apenas, mas no modo de ser. No esporte mais improvável para um País tropical — o skeleton, em que o corpo desce a mais de 120 quilômetros por hora sobre uma lâmina de gelo — ela encontrou não só uma modalidade, mas um destino.
Enquanto muitos associam as Olimpíadas de Inverno aos países distantes, montanhas nevadas e culturas alheias, Nicole lembra que o sonho olímpico não respeita geografia. Ele nasce onde há disciplina, coragem e persistência. E, isso, Rio Grande sempre teve de sobra.
Sua trajetória é feita de escolhas difíceis, de treinos longe de casa, de quedas que não aparecem nas estatísticas e de uma rotina que exige mais silêncio do que aplausos. Mas também é feita de algo raro: a capacidade de transformar o improvável em possível. De olhar uma pista de gelo e não ver medo, mas desafio.
Neste ano, ao participar novamente das Olimpíadas de Inverno, Nicole não representa apenas o Brasil. Representa aquela parcela de brasileiros que insiste, mesmo quando tudo parece fora de lugar.
Representa a cidade que aprende a conviver com o frio, com a espera e com a perseverança. Representa, sobretudo, a ideia de que não há limites quando o trabalho é sério e o sonho é honesto.
Talvez muitos, em Rio Grande, nunca tenham visto uma pista de skeleton. Mas conhecem bem o vento no rosto, o corpo resistindo, a fé de que seguir em frente vale a pena. E isso, no fundo, é exatamente o que Nicole faz — só que em escala olímpica.
Quando ela descer novamente o gelo, veloz e concentrada, não será apenas uma atleta. Será um pedaço do extremo sul do Brasil desafiando o mundo, em silêncio, com coragem e dignidade.
E isso, convenhamos, é motivo mais do que suficiente para orgulho de todo o povo rio-grandino.




