
Falei do sistema de pedágio Free Flow: fluxo contínuo. Fui até chato em alertar sobre a cobrança invisível, promessa de eficiência. Persisti em debater a ideia de que o motorista não para mais para ter ciência da obrigação e colocar a mão no bolso— e talvez aí esteja o problema.
Ganhou-se tempo; perdeu-se referência.
Sem cabine, sem aviso claro, sem orientação efetiva, muitos passaram a ser multados não por fraude, mas por desconhecimento. Prazos curtos, aplicativos pouco intuitivos, canais dispersos. O sistema exige informação prévia que não foi suficientemente entregue.
Num Estado Democrático de Direito, a publicidade não se esgota na existência da norma. É preciso compreensibilidade. Quando a sanção nasce da ignorância induzida — ou tolerada — há um desvio silencioso.
O cidadão não pode ser tratado como infrator por padrão.
Modernizar não é apenas digitalizar; é garantir que a transição não transforme desinformação em receita. Porém, ocorre o contrário, existe multa por desinformação.
O padrão se repete fora das rodovias. A ponte entre Rio Grande e São José do Norte reaparece ciclicamente como promessa.
Fala-se em integração, desenvolvimento, logística. Mas onde estão, de forma clara e consolidada, o custo total, o modelo de financiamento, o cronograma vinculante e os responsáveis diretos?
Estuda-se, anuncia-se, projeta-se — informa-se pouco.
Também a narrativa sobre plataformas em Rio Grande oscila entre entusiasmo e silêncio. Ora somos polo estratégico da indústria naval; ora os estaleiros arrefecem e os números desaparecem do debate público.
A propaganda antecipa prosperidade; a transparência não a acompanha.
O elo é a assimetria de informação. No pedágio invisível, paga-se sem entender plenamente as regras.
Nas grandes obras, espera-se sem conhecer as condições reais. Em ambos, não falta tecnologia nem discurso — falta clareza.
E sem clareza, o Estado deixa de orientar e passa a surpreender.
No primeiro caso, com multas.
No segundo, com promessas.
Ah! Essa política nefasta!!!




