Grunge – o movimento que mudou o rock
Nas colunas anteriores, tratei um pouco sobre o que foi a Invasão Britânica e suas diversas ondas e expoentes. A partir de hoje, vou tratar um pouco de um movimento que fez o rock dar uma guinada no rumo como poucas vezes na história. Como? Com o grunge. Vem comigo conhecer um pouco mais sobre o movimento que, para alguns salvou o rock e, para outros, foi quase como um adeus ao estilo. Na minha opinião, o grunge foi muito mais além do que apenas fazer os puristas torcerem o nariz para o estilo visual e sonoro do movimento. E sim, sem ficar em cima do muro, gosto demais dessa vertente.
Surgido numa região gelada dos EUA, próxima ao Canadá, mais precisamente em Seattle, Washington e Olympia, o grunge teve influências claras de indie rock, hardcore, punk e heavy metal. Num período em que o metal era pautado pela extravagância e letras mais pueris e voltadas à curtição, sexo, exageros, cabelos armados com laquê (ok, ok, admito, sou um dinossauro musical e cultural…hehehe), roupas coloridas e muita mídia, onde bandas como Mötley Crüe, Cinderella, Poison, Ratt, entre outras, estrelavam o Glam Metal (ou Metal Farofa, para alguns), surge o grunge na contramão, com letras angustiantes, sarcásticas, entremeadas de temas como abuso, abandono, traição, alienação social e todo tipo de trauma psicológico. E não eram traumas imaginários, eram reais. Em outra coluna, abordarei alguns desses traumas que deixaram cicatrizes tremendas em muitos dos expoentes do estilo.
Se nas letras, o grunge já era extremamente diferente do que era consumido pelos fãs do glam, na aparência o estilo era ainda mais contrário. De um lado, a super produção do glam; de outro, o despojamento quase que beirando o desleixo do grunge. Camisa de flanela na cintura, bermudas compridas e botas era quase que um uniforme. Mas tudo isso é secundário. O movimento foi muito além da estética, com toda certeza!
O grunge foi um ato rebelde contra o mainstream, foi uma reação crítica à toda cena musical reinante à época. Era a quebra de paradigmas, de ir contra a corrente, de lutar contra a pasteurização musical. Foi uma reação de jovens querendo mostrar que poderiam ir além do status quo reinante, do senso comum, para dar voz ao underground, daquilo abaixo da superfície social e cultural.
Mas, afinal, o que significa ‘grunge’? O significado mais aceito é que o termo seja uma variação um tanto desleixado de ‘grungy’, um termo usado para referir-se a algo sujo, uma alternativa a ‘dirt’ (sujo) ou ‘filth’ (imundície). Como vemos, a ideia era relacionar o movimento a algo realmente desleixado, sujo.
Mark Arm (ou Mark Thomas McLaughlin, seu nome verdadeiro), vocalista da banda Green River e, posteriormente, do Mudhoney, teria sido o primeiro a usar o termo, ainda em 1981, embora ele mesmo admita que “Obviamente, eu não inventei o grunge. Peguei o termo de outra pessoa. Ele já era usado na Austrália em meados dos anos 80 para descrever bandas como King Snake Roost, The Scientists, Salamander Jim e Beasts of Bourbon.” Muitos integrantes do movimento afirmavam que o termo sequer tinha significado real e que demorou um tempo para que fosse sinônimo das bandas que integravam.
Durante o reinado da MTV por terras brasilis, acompanhei muito o surgimento e o ocaso do grunge, o que os tornou muito populares e, principalmente, seus principais expoentes. Porém, quem acha que o grunge se resume a Pearl Jam, Soundgarden, Nirvana e Alice In Chains, engana-se muito. Há muito mais sob esse guarda-chuvas cultural. Bandas menos conhecidas (ou menos badaladas, talvez), como Melvins (talvez a precursora real do grunge), Mother Love Bone, (cuja morte do vocalista, Andrew Wood, começou a mostrar que os jovens de então não eram imortais e invencíveis como imaginavam), Green River, L7, Screaming Trees, Tad, Mudhoney, Hole, Temple Of The Dog, dentre outras, mostram que o movimento surgido perto da fronteira com o Canadá tinha muito mais a oferecer em termos musicais.
Nas próximas colunas, vou começar a esmiuçar bandas, canções e influências culturais e sociais que marcaram gerações.
O grunge, ainda hoje, serve como inspiração para novas bandas, estilos e deixou, de maneira indelével, marcas e cicatrizes em forma de rock ao redor do mundo.
Até semana que vem!


