Presidente da Câmara do Comércio analisa economia, política e desenvolvimento de Rio Grande
Rafael Fonseca Ferreira concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Sou do Sul em que comenta vários aspectos relacionados à administração e ao segmento empresarial do Município
O advogado e professor universitário Rafael Fonseca Ferreira assumiu como presidente da Câmara de Comércio de Rio Grande em 1º de julho do ano passado para um mandato que se encerra em 30 de junho de 2027. É o primeiro cargo dentro da diretoria da entidade empresarial, embora já tivesse assessorado o órgão como profissional da advocacia. Professor de Direito na Universidade Federal de Rio Grande, e rio-grandino de nascimento, de fala mansa e ponderada, sentencia, sobre a economia de Rio Grande: “Nós temos um potencial de consumo representativo, porém a gente não vê isso se traduzir na própria cidade. Da economia de maneira mais clara, a gente entende que o dinheiro, especialmente vindo do segmento industrial ou até mesmo das empresas da região do Porto de Rio Grande, não fica na cidade, não circula internamente de maneira direta. Os valores ficam concentrados em determinadas pessoas, empresas, ou até mesmo vão embora. Não se traduz diretamente em benefício para a mão de obra que faz os girar nossos, e esse dinheiro que vai embora é um grande problema”, avalia o presidente Rafael Ferreira.
Quadro de associados
“Nós temos hoje em torno de 300 associados. Tivemos um acréscimo de associados, do início da minha gestão para cá, em torno de 25 a 30%. São cerca de 300 associados pagantes. Esse número poderia ser maior se houvesse uma participação maior das empresas como um todo. Mas o contexto social modificou o perfil do associado. Hoje temos bastante profissional liberal participando, empreendedores individuais que fazem parte do quadro societário. Já tivemos, por exemplo, dentro do histórico da entidade, momentos com menos associados, mas com maiores contribuições por parte das principais empresas. Mas esse perfil vem se modificando, e que predomina, hoje, é serviços. Em algum momento a indústria, em particular, teve uma participação bastante representativa, mas hoje a dominância é do setor dos serviços, mesmo que diversas empresas da barra tenham uma contribuição bastante representativa”.
Potencial de consumo
“Nosso potencial de consumo é representativo, a 11ª cidade do Rio Grande do Sul, porém a gente não vê isso se traduzir aqui dentro. Nosso dinheiro, em grande parte vai embora, e isso é um problema nesse momento. Talvez em outra situação da cidade, ou num outro contexto econômico, isso não fosse tão relevante, não fosse tão sentido. Hoje a gente nota que a cidade aparentemente está, e vou usar uma expressão que tenho usado muito, desmoronando de dentro para fora, a gente sente bastante a dificuldade das pessoas de poderem consumir no comércio, no varejo, nos serviços de qualidade. O potencial de consumo continua existindo mas com menor qualidade agregada. O desmoronando de dentro para fora se deve a vários fatores, principalmente ao comércio digital. Tínhamos grandes empresas de varejo que faziam movimentar o centro da cidade que agora está completamente,ou parcialmente, no ambiente digital. Isso representa que as coisas não estão funcionando, que a riqueza não está circulando dentro da cidade”.
Onde se concentra a economia de Rio Grande
“A grande representatividade está, sim, no Porto, nosso Produto Interno Bruto gira muito em função daquelas empresas. Mas a gente tem outras possibilidades, como o Cassino que é um ativo importante da cidade, embora a questão hoteleira ainda precise melhorar. Mesmo a questão do consumo de melhor qualidade está migrando para o Cassino. Mas possuímos outros importantes, por exemplo na região da Vila da Quinta, ou da Junção. Mas acredito que o grande volume agregado esteja na região portuária. Mas temos comércio e serviços espalhados pela cidade, e isso ajuda bastante na economia como um todo”.
Escala 6 x 1
“Nesse momento o que é importante dizer, e eu como professor passo por isso dentro da sala de aula, porque sou professor de Direito Constitucional, a gente sabe que a questão do incremento e promoção dos direitos sociais é um compromisso da constituição federal, mas é preciso entender o que está acontecendo economicamente. Talvez não seja o melhor momento para isso acontecer, mas se entende como um movimento natural. E tenho convicção que isso não vai abrir mais portas de emprego. Pode acontecer em determinados segmentos, mas não será representativo. Também entendo que não haverá demissão em massa por causa disso. A questão principal é que o perfil do trabalhador mudou. A gente é do tempo em que tínhamos compromisso leal com os locais de trabalho. Essa nova geração não tem, e não é um crime isso, não é um problema. Mas com certeza isso cria uma disrupção no mercado de trabalho, então eu não vejo que isso seja uma solução econômica. A mudança da escala de trabalho pode ser uma solução política. Mas econômica, não me parece que vai produzir um incremento ou desenvolvimento econômico. Inclusive alguns números, especialmente do segmento das indústrias, mostram que para produzir a mesma coisa na escala 5 x 2, vai ter que ter uma produção que supera 40% para ter o retorno desse novo custo na manutenção das plantas. Então não vejo isso como sendo uma solução”.
Bolsa Família
“Se fala muito que as pessoas se tornaram dependentes do bolsa família. Sim, mas a gente tem que entender também que existe uma massa de pessoas que não tem acesso ao que a gente chama de mínimo existencial, por isso precisam do suporte do Estado. Por outro lado também tem os serviços que depende dessa mão de obra em que se paga pouco. O comparativo de quanto tu recebe é uma análise de conveniência, mas entre receber talvez R$ 1.600,00 e receber R$ 600,00 a R$ 800,00 tendo o livre disponibilidade do tempo é uma conta que todo mundo faria dentro da sua análise de conveniência. Essa pessoa não terá renda para aposentadoria, não pensa a longo prazo, mas são métricas que usam”.
Vai ter “boom” econômico?
“Não vejo a contratação para fabricação de novos navios aqui em Rio Grande como capaz de gerar o mesmo impacto que se deu há alguns anos. Vai ter um certo impacto, sim, mas costumo dizer que seja neste segmento ou em outros, dentro da área portuária, nada será como antes, mas não é no sentido de que não sequer. É porque é preciso fazer uma análise de eficiência, o que quer dizer que boa parcela dos investimentos no Porto, e há investimentos bilionários em diversas plantas na área industrial, só que é preciso ver que em várias delas o investimento é na eficiência, ou seja na desnecessidade do uso de mão de obra. Temos que entender esse mecanismo não pelo populismo político de uma determinada decisão. Não estou dizendo que a gente tem que ser de esquerda ou de direita, mas pessoas têm que entender o que está acontecendo no mercado. O eficientismo das plantas busca a redução da mão de obra porque o trabalhador é caro e é custosa, esse é um ponto. Outro ponto são as outras formas de eficiência que estão surgindo, como própria inteligência artificial. Vai ter impacto. Que talvez o próprio Estado não terá condições de suportar porque vai perder muita receita com isso, e não vai ter como suportar os programas que ele tem como compromisso constitucional de executar”.
Como vai o governo Darlene
“Isso não é um problema da Darlene (Pereira, prefeita de Rio Grande), não era um problema do Fábio (Branco, ex-prefeito), mas a gente nota que nenhum governo municipal tem condição de investir em pautas estruturais. Não consegue construir uma ponte, não consegue construir uma rua. Fica no tapar buraco e botar plantinha, ou seja, algo que seja relevante para a comunidade mobilidade urbana, serviço, não se consegue enxergar de uma maneira clara. A cidade está envelhecendo, porque é uma cidade antiga, mas está envelhecendo por ausência de um cuidado melhor. Em algumas oportunidades falei para a prefeita, não como crítica, mas dentro de um ambiente de cordialidade, que a gente precisa escolher coisas para fazer bem, e não várias coisas mal. Tem pontos positivos? Se a gente procurar, vai enxergar, mas o que a gente nota hoje é uma ausência de cuidado. A gente convida várias pessoas para vir a Rio Grande, seja do círculo pessoal ou do círculo empresarial para vir falar aqui, e invariavelmente as pessoas comentam “Mas a cidade continua igual, senão pior. A gente chega na cidade e o aspecto é ruim”. Por exemplo, a duplicação da RS-734 é uma obra estadual, mas o que custa manter limpo, sinalizado? A via de saída, a 1º de Maio está como está desde que começou. Vai perguntar para a prefeita, talvez ela diga que existem outras prioridades, mas a minha responsabilidade é olhar como cidadão, como presidente de um segmento, e apontar aquilo que para nós é importante, prioritário. Costumo dizer que se gente não cuida da nossa casa, não pode convidar as pessoas para estarem aqui”.
A travessia Rio Grande a São José do Norte
“A travessia Rio Grande de São José do Norte, se não é fundamental para a economia do Município, pode ser um fator determinante. Não saberia mensurar qual o impacto direto, mas eu tenho a perspectiva de que seria determinante porque nos tiraria, pelo menos, daquela ideia de que nós somos rotas de fim. Ou seja, que passaremos a ser um caminho importante de desenvolvimento e da produção. Talvez um dos grandes outros ativos que nós temos regionalmente é a possibilidade de duplicar o nosso porto no lado de São José Norte com um custo menor do que nós temos aqui pelo menos para mantermos a profundidade do canal. Com isso eu estaria dizendo que investir ainda que se diga recursos privados, mas também recursos públicos porque não tem como, num outro porto, como o de Arroio do Sal, não me parece estratégico considerando as condições que nós temos para desenvolver aqui. Culturalmente vai melhorar, socialmente vai melhorar e economicamente vai melhorar. Então eu penso, sim, que essa ponte pode ser determinante para um desenvolvimento macro da região. Não apenas de Rio Grande, mas do nosso Município, de São José do Norte, comunidades regionais e outras cidades. É absolutamente relevante e, isto sim é uma obra de impacto.





